quinta-feira, 21 de junho de 2012

Rio+20 e a Hipocrisia do Mundo



A palavra do momento é sustentabilidade. Ganhou um amplo espaço em discussões governamentais e enche a programação televisiva de nosso país. Um país sustentável, basicamente, é aquele que polui pouco, usa de métodos alternativos para a criação de energia limpa, recicla, enfim, agride o mínimo possível o planeta. Métodos usados em escala local que beneficiarão em escala global. Mas será que nosso país está preparado para tal discussão? Será que o mundo está preparado para ser sustentável?

Rio+20. Encontro onde representantes de várias nações tem em pauta a sustentabilidade. Escolheram nossa terra para isso. Vivemos em meio à corrupção, a fome, a pobreza, o enriquecimento ilícito, descaso com a saúde e a educação, entre vários outros problemas que já se tornaram corriqueiros em nossas vidas. De que adianta sermos modelo de sustentabilidade se não somos, sequer, modelo de governo? Nossos deputados se elegem nas costas da fama, do dinheiro sujo, do apadrinhamento, enquanto nossas crianças não têm cadeiras para sentar durante as aulas. Obras superfaturadas abarrotam de dinheiro os bolsos dos donos de empreiteiras, enquanto hospitais não possuem seringas para aplicar a cura em seus pacientes. Nossos professores, em greve, buscam chamar a atenção do governo lutando em prol da educação. Além de brigarem pelo direito que lhes é adquirido pela constituição, estão preocupados com os rumos que a educação permeia esse país. Não queremos que nossas crianças se tornem traficantes ou assaltantes de banco, queremos médicos, engenheiros, escritores, advogados, que trabalhem para o bem da nação. Você leitor, deve me perguntar. Onde a sustentabilidade entra nessa história? E sem pestanejar, te digo. Não estamos preparados para, sequer discutir tal assunto. Triste isso? Horrível. Daqui alguns anos, nós teremos construído arranha-céus de garrafas de plástico, aviões movidos a ar, casas auto-sustentáveis, poderemos até tirar energia da inércia das pedras, mas, do jeito que o Brasil anda, a corrupção vai continuar à nossa vista, o descaso com a saúde e a educação será mais que um clichê no país. Toda essa tecnologia verde vai ser importada, porque os futuros cientistas daqui não saberão separar água de óleo (elementos que não se misturam caso você não aprendeu isso na escola). Queremos um mundo lindo, onde tudo é renovável, rico em recursos naturais e toda essa conversa chata de ser sustentável. Falamos em tratar de forma justa nosso planeta, mas não respeitamos os negros, os homossexuais, os deficientes, os idosos. Antes mesmo de conseguirmos plenamente falar sobre sustentabilidade, a raça humana já terá sido extinta. Não sou contra a preservação do planeta e seus recursos, mas é absurdamente hipócrita abraçarmos uma árvore, enquanto poluímos a Paz com a Guerra. 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Crônica da Parede Branca


E eu olhava aquela parede branca e via um horizonte de oportunidades. A cozinha suja com a louça em cima da pia, mostrava que ali, parecia que ninguém morava. Uma sala com mais espaço que lugares pra sentar, e eu ali sozinho entretido com a parede branca sonhei com um futuro incerto, amores passados e a saudade de casa. A distância que as redes sociais propiciam me deixava perto de quem amo e longe de um abraço amigo e um carinho sincero. Então resolvi andar. Pelas ruas sujas do interior do Rio Grande do Sul, em meio à centena de pessoas me vi só. E me chamava a atenção o silêncio do tráfego. As sinaleiras que mudavam de vermelho pra verde faziam um som que nunca pensei que existisse. Continuei andando sem rumo, sem lenço e sem documento a procura de nada além da distância daquela parede branca. Voltei pra casa. O apartamento, que mais se parecia com uma mansão de tão grande, era a caverna na qual me escondia do frio gaúcho. Um vinho? Um cigarro? Não. Nada disso parecia ser boa companhia naquela hora. A TV desligada era mais educativa. O som dos cães do vizinho de cima não incomodava. E assim passei o dia, em meio à solidão dos passos na rua e a companhia da parede branca.

Na madrugada, a ausência dos amigos, que partiram para casa, não fazia tanta falta, mas quando aqui estavam me tiravam sorrisos. E eu me deparei novamente flertando com a parede branca. Ela não pedia um abraço nem conselhos, não me julgava, mas me mostrava onde eu estava. Não trancado em um apartamento, mas sonhando com um futuro incerto, maravilhoso e cheio de desafios. E foi ali, na companhia mórbida da parede branca que entendi que um pouco de solidão não faz mal a ninguém, e que quando os sonhos de um futuro incerto se concretizarem, vou me deparar novamente de frente com outra parede branca me fazendo pensar em outros sonhos, outras perspectivas de vida, outras ausências que se farão presentes e outro futuro de um eu mais velho, com rugas, emprego, família, mas que nunca pode perder o luxo de, mesmo que em algum lapso de segundos, refletir sobre tudo de frente a uma parede branca, acompanhado da solidão.