segunda-feira, 11 de junho de 2012

Crônica da Parede Branca


E eu olhava aquela parede branca e via um horizonte de oportunidades. A cozinha suja com a louça em cima da pia, mostrava que ali, parecia que ninguém morava. Uma sala com mais espaço que lugares pra sentar, e eu ali sozinho entretido com a parede branca sonhei com um futuro incerto, amores passados e a saudade de casa. A distância que as redes sociais propiciam me deixava perto de quem amo e longe de um abraço amigo e um carinho sincero. Então resolvi andar. Pelas ruas sujas do interior do Rio Grande do Sul, em meio à centena de pessoas me vi só. E me chamava a atenção o silêncio do tráfego. As sinaleiras que mudavam de vermelho pra verde faziam um som que nunca pensei que existisse. Continuei andando sem rumo, sem lenço e sem documento a procura de nada além da distância daquela parede branca. Voltei pra casa. O apartamento, que mais se parecia com uma mansão de tão grande, era a caverna na qual me escondia do frio gaúcho. Um vinho? Um cigarro? Não. Nada disso parecia ser boa companhia naquela hora. A TV desligada era mais educativa. O som dos cães do vizinho de cima não incomodava. E assim passei o dia, em meio à solidão dos passos na rua e a companhia da parede branca.

Na madrugada, a ausência dos amigos, que partiram para casa, não fazia tanta falta, mas quando aqui estavam me tiravam sorrisos. E eu me deparei novamente flertando com a parede branca. Ela não pedia um abraço nem conselhos, não me julgava, mas me mostrava onde eu estava. Não trancado em um apartamento, mas sonhando com um futuro incerto, maravilhoso e cheio de desafios. E foi ali, na companhia mórbida da parede branca que entendi que um pouco de solidão não faz mal a ninguém, e que quando os sonhos de um futuro incerto se concretizarem, vou me deparar novamente de frente com outra parede branca me fazendo pensar em outros sonhos, outras perspectivas de vida, outras ausências que se farão presentes e outro futuro de um eu mais velho, com rugas, emprego, família, mas que nunca pode perder o luxo de, mesmo que em algum lapso de segundos, refletir sobre tudo de frente a uma parede branca, acompanhado da solidão.

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